Chove chuva e gentileza gera gentileza!

Começou a cair água do céu e pensei em correr, mas pra onde? Até olhei pra guarita do guardinha do Parque Lage, mas guaritas são pra autoridades, e eu lá sou uma autoridade?! Sai andando, e meu coração aliviou quando diminui o passo. No meu Ipod encharcado começou a tocar Arnaldo Antunes e minutos depois a música fez mais sentido ainda do que já fazia. Na tentativa de salvar o livro do Nick Hornby que ia comigo, parei num ponto de ônibus. Um senhor que esperava a chuvarada passar me olhou e disse: “esse livro precisa de uma ajuda!” E tirou o leite desnatado do saquinho amarelo de supermercado e me desejou uma boa caminhada. A rua deserta e eu. E eu amo banho de chuva e eu amo pequenas gentilezas anônimas.

http://youtu.be/WgZqm_htwSs

Antes da chuva sempre teu "alguém" de olho.
Antes da chuva sempre tem "alguém" de olho.

Que a bicicleta nos proteja. Amém!

Tinha meus 6 ou 7 anos quando meu pai, num terreno baldio na frente do presídio de Passo Fundo, me ensinou a andar de bicicleta. Ela era azul, vindo de um primo rico. Depois teve a Brisa tão rosa, tão querida e recentemente reformada pela minha irmã Raquel. Mesmo tendo um histórico de aventuras com bicicletas, que incluia descer ladeiras ingrimes com amigos de infância, posso dizer que uma cidade me deu a chance de amar novamente as bicicletas, depois dos 30 anos. Amsterdam respira à pedaladas fortes. Me lembro que quando cheguei lá tinha um certo receio de andar em duas rodas. Coordenar as outras bikes, as pessoas, os cachorros, as crianças, os carros (eles existem), os turistas bêbados ou chapados… tudo era uma questão de tempo, mas nos primeiros dias me apavorava e por pouco não cai num canal. Depois de um ano, andava falando ao telefone, pegando óculos de sol na bolsa e dando dicas de direção, tudo ao mesmo tempo!!! E é por Amsterdam que, hoje, no Rio, me sinto tão feliz quando pego umas das bicicletas “laranjinhas” e saio por ai, com ou sem rumo. O destino deste domingo foi o Jardim Botânico. Mais de 200 anos de história e guardas muito simpáticos que se locomovem com bikes verdinhas que são uma graça.

Pra saber mais sobre as “laranjinhas” das quais, definitivamente, virei usuária assídua e feliz – clique em Bike Rio.

os dinossauros do Jardim Botânico
Orquídeas vem de Orchis - Filho de um sátiro com um ninfa que foi morto pelas bacantes... que trama!
Orquídea vem de Orchis - Filho de um sátiro com um ninfa que foi morto pelas bacantes... que trama!
caramanchão do Jardim Botânico
Seu guarda - George Proença. Foi quase um pique esconde. Queria tirar foto das bicicletas dos guardas desde que cheguei no parque, mas o Jardim, dependendo do angulo, parece um labirinto. Ai falei com um guarda em terra, Seu Mario, e ele prontamente me ajudou. Interfonou dizendo que precisava ir ao banheiro e pediu para ser substituído por um amigo da bike. Em 5 minutos o George tava lá, isso sim é eficiência pedalística.
laranjinhas - Tenho dezenas a minha disposição!!!
E toda a pedalada acaba no Seu Luciano - o paraibano que mais entende de coco da Lagoa Rodrigo de Freitas. Detalhe: diz ele que não é homem de sorrir muito, mas fez um esforço para as lentes da gaúcha e acrescentou: "não dou muita risada mas sou bem feliz!!!"

Parque Lage

Acho que já mencionei o Parque Lage aqui no blog, mas com o passeio que fiz ontem, penso que o lugar, que data de 1811, merece um post pra chamar de seu. Aos pés do morro do Corcovado, os 52 hectares de natureza exuberante, ao longo destes dois séculos, passaram pelas mãos de alguns magnatas. Em 1920, o parque é re-adquirido por Henrique Lage, neto de Antônio Martins Lage, antigo proprietário e tem sua reforma encabeçada pelo arquiteto italiano Mario Vodret. Já a esposa de Henrique, Gabriela Bezanzoni (que não era ruiva*) dava o tom musical  e social à mansão, convidando a elite carioca para suas festas e saraus – a moçoila era cantora Lírica. Uma boa surpresa foi descobrir que a escritora Marina Colasanti morou por ali, pois é sobrinha neta de Gabriela. Em meados dos anos 60 a propriedade foi desapropriada e convertida em parque público, hoje, no palácio, funciona a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Alias, a exposição “Para o silêncio das Plantas” de João Modé, que vai até 11 de março, vale a pena ser visitada. O projeto propõe uma intervenção com trilhas no meio do mato e música tocando intercaladas com o silêncio.

* Ano passado tive o prazer de explorar um pouco do parque com grandes amigas. Após descobrir a história de amor entre Henrique e Gabriela, ficamos elaborando várias conspirações românticas e tínhamos aquela certeza absoluta, aquela que só quem tem são os amantes de mistérios descabidos, histórias em quadrinhos e filmes do Hitchcock, que a cantora lírica era ruiva. Uma das histórias que descobri é que depois que casou, Gabriela não cantou mais em público. Só pra ele?

Pixar do Parque Lage
Pixar do Parque Lage
As trilhas de João Modé
As trilhas de João Modé

 

 

 

Light painting

Foto feita pela agência Gringo na campanha da Absolut Glimmer
Foto feita pela agência Gringo na campanha da Absolut Glimmer

Em dezembro fui numa mostra muito bacana aqui no Rio chamada Tocayo. Coletivo que reuniu vários artistas em performances, oficinas, cinema, exposições e shows em um galpão no centro da cidade. Fora as reformas,  que pipocam pela cidade e chegaram a atrapalhar um pouco o acesso ao evento, as 12 horas de programação non stop foram bem vindas e recheadas de coisas bacanas, como sessão de cinema, circo e poesia. Alias, acho que pouca gente reparou, mas adorei os horários marcados para o começo das atividades, 16h16, 19h19, 22h22 e por assim ia. A primeira vez que me deparei com horários quebrados foi numa estação de trem em Asmterdam. Lá as saídas de trem são todas quebradinhas, mas funcionam que uma beleza. Nem pense em chegar na corrida pra pegar um trem depois do horário definido, do tipo: 13h49. Bom, mas uma das coisas que mais gostei, além de assistir uns curtas antigos feitos aqui no Rio, foi uma oficina de Light painting.  A técnica que basicamente consiste em fazer figuras com uma câmera fotográfica utilizando fontes de luz me cativou. Fotos com desenhos inusitados ou aleatórios fizeram sucesso num stand que, senão me engano, era patrocinado pelo Itaú. Segundo Marcio Isensee, idealizador e produtor do evento que começou junto com alguns amigos  mostrando seus trabalhos em 2004, “toda a arte é bem vinda” ou “tudo junto misturado” são bons slogans para o Tocayo.

Confere como ficou a exposição do Coletivo Muda . Tem fotos bacanas do evento no blog do Henrique Madeira e light painting também.

Ps: O coletivo Muda me fez perceber que estou com uma obsessão por azulejos. Saco a câmera pra todos que vejo, acho que é o Rio querendo me dizer algo.

A Geraldine quer uma foto assim!!!
A Geraldine quer uma foto assim!!!
The picture never knows - Foto do Tocayo 2011
The picture never knows - Foto do Tocayo 2011

Thomas Stevens foi o cara

Nestes tempos de bike lovers e muitos modismos, lembrei do originalíssimo amante da  Geraldine, Thomas Stevens. Imagina viajar de São Franscisco (EUA) até Tókio levando duas cuecas, duas meias e a roupa do corpo. Bom, a maioria das pessoas que eu conheço, mesmo para ir até a esquina, carregam um mala cheia de tranqueiras. Então imagina que esta viagem around the world foi feita em cima de uma bicicleta e lá pelos anos 1800 e tantos. Barbaridade, diriam alguns, maluquice diriam outros, amor diriam tantos. E tem livro sobre a viagem!!!!!