O casamento turco

Atrasados, sempre estamos atrasados. Pensei: vou chegar depois da noiva!!! De vestido, meia calça e sapatinhos com lantejoulas subi na Geraldine (sapatinhos sem salto pois não sou tão ousada como as holandesas que, de bicicleta, andam de salto agulha). O Renato estava lindo de terno, cachecol e bicicleta. Era final do dia e a luz ajudava a deixar tudo mais bonito. No caminho para o casamento de Aycan e Sahin Geraldine descobriu que, como o Renato, gosta de ouvir o barulho que as folhas amarelas das árvores (que estão pelo chão nesta época) fazem quando são esmagadas pela roda. Bom, já eu, na segunda curva, resolvi esquecer o penteado que tinha feito, estava escandalosamente estranho mesmo, depois do vento todo que levei rezei pra não chegar na cerimônia parecendo um ninho de passarinho. Quando adentramos no lugar onde seria o casamento uma mocinha veio ao nosso encontro com um tipo de lâmpada de Ali-baba querendo alguma coisa, depois de um tempo entendemos que aquilo ali era uma colônia e que tínhamos que nos perfumar. O cheiro era forte, bem forte. Todos os convidados ficariam com o mesmo cheiro nesta noite. Olhando em frente, no corredor para o salão principal, avistamos uma fila de velhinhas, todas baixinhas, troncudas e vestidas com lenço característico na cabeça. De novo não sabíamos muito bem o que fazer, começamos tentando explicar, em inglês, pra uma das senhoras, que parecia ser a mãe do noivo, que eramos convidados de Sahin. Ela pouco entendeu e chamou um guri que passava. Assim, fomos introduzidos na festa por uma criança de uns 10 anos que fora nosso tradutor. Quando me dei conta onde estava pensei naquele filme “Casamento Grego” lembra? O lugar era grande, com decoração branca e metálica,  pilares de espelhos (vários ladrilhos quadradinhos de espelhos), mesas compridíssimas atrás e algumas poucas mesas redondas para 10 pessoas na frente. Pois foi numa destas mesas redondas que sentamos eu e Renato, três holandeses, um casal de turcos e um indiano. Éramos VIPs.

FLASHBACK (Em homenagem ao Hugo que, como ninguém, sabe contar histórias com flashback): dias antes olhei uma notícia curiosa na internet. No domingo próximo milhares de casais iam oficializar seu relacionamento. Segundo nosso amigo Google, o dia 10 de outubro de 2010 (10/10/10) é conhecido como “shi quan shi mei”, ou “perfeito em todas as maneiras” e este tipo de combinação numérica só acontece 12 vezes por século. Daí a superstição de que casar neste dia traria sorte. Pensei que tudo era uma grande viagem e que eu não conhecia ninguém que iria se casar neste dia…

Quando os noivos chegaram no salão todos bateram palmas. A noiva estava com um véu na cabeça que cobria o rosto todo e uma espécie de cinto vermelho no ventre. O noivo estava de branco e parecia bem nervoso. O casal foi para o meio do salão, ele tirou o véu dela com cuidado e deu um beijo na sua testa. Um homem pegou o microfone e começou a falar (nesta hora acho que só a nossa mesa não entendeu nada, excetuando o casal turco). Depois de um tempo eles começaram a dançar e as pessoas foram se aproximando até virar uma roda com os noivos dentro e o som das palmas e dos gritinhos de alegria tomaram conta da festa. A predominância de mulheres na roda era nítida. Elas que fizeram a festa acontecer. Só os homens jovens dançavam, os mais velhos ficavam sentados com cara de Poderoso chefão. É claro que não tive dúvida e fui pra roda dançar também. A dança das mulheres turcas é uma dança de ombros, mãos, braços. Eu olhava e tentava imitar. Algumas das senhoras olhavam pra mim com satisfação e eu entendi que estava conseguindo acompanhá-las. O Renato, ao contrário, disse que eu rebolava demais. Bom, pra quem veio da terra do samba nada mais normal. Chamei o pessoal da mesa e as holandesas e o indiano vieram. Foi muito engraçado. Alias, o Indiano estava sentado ao meu lado durante a festa e fazia caras e bocas para todos aqueles rituais, divertidíssimo. Foi ele quem me disse que a noiva tinha 17 anos, dez menos que o noivo. Perguntei onde eles se conheceram e ele disse que, provavelmente, as familias eram amigas de longa data. Eles realmente pareciam se amar. A festa corria solta e me dei conta de que quando chegamos as mesas estavam praticamente vazias (e eram muitas) e que agora estava tudo tomado de gente. Fiquei pensando que no fim todo o casamento é parecido, exceto alguns rituais e peculiaridades de cada cultura. Sempre tem as tias sentadas, os jovens dançando, as bençãos, as crianças correndo e tentando estragar o bolo (este, em particular, tinha umas pontes e o tradicional casal de noivinhos). A idéia é sempre a mesma: juntar quem você mais gosta num mesmo lugar pra festejar a união, a amizade, a familia. Detalhe: sem bebida alcoólica. Pois é, toda esta folia (eles não pararam de dançar um minuto, praticamente) regada a água e refrigerante. Segundo me explicaram, tomar bebidas alcoólicas no dia do casamento atrai o azar. No fim, um pouco antes de irmos embora, uma fila se formou para que os parentes pudessem dar seus presentes e seus abraços nos noivos. Saímos de mansinho e rimos das crianças que, depois de tanto tentar, conseguiram acionar o alarme de incêndio.

Escrito em 10/10/10, antes da meia noite.

12. October 2010 by renata
Categories: Festa | Tags: , , | 6 comments

Comments (6)

  1. Foi festa e tanto e a melhor parte pra mim foi ver que aquelas senhoras com “pano” na cabeça e quase sempre com caras de bravas, na hora da música, dançavam como se fossem pessoas normais!rs, brincadeira claro, mas não somos tão diferentes dos turcos quanto eu pensava. Adorei seu texto linda!
    Beijos

  2. Rê, que delicia esse blog! Acabei de adicionar ao meu Favoritos, bom demais ver pessoas queridas felizes :)

    bjs!

  3. Bem que eu te avisei que se fossem tradicionais dançarias horrores além de bater muitas palmas. Que dia lindo!

  4. “os mais velhos ficavam sentados com cara de Poderoso chefão”
    melhor frase!

    Viu só? E vocês achando que, por terem ido no meu, já tinham visto um casamento turco! hshshshsh…

    Renatinha, baita texto, e baita blog! Adicionado!!!

    Beijo pra ti e abraço no Renato!

  5. Vim ler de novo, rs! Ah, as coisas que a gente aprende com Lost!!!!

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