Why Poverty? na Maré.

Passei o dia ouvindo ideias e propostas vindas de projetos muito incríveis. Um deles, o Why poverty?, quer juntar uma audiência de meio bilhão de pessoas ao redor do mundo com um projeto que une audiovisual e mobilização social. Junto com os idealizadores do projeto, fomos visitar uma outra iniciativa linda, no complexo da Maré (composto por várias favelas do Rio contabilizando mais de 160 mil habitantes). A Redes atua na comunidade focada na transformação social através de projetos voltados para educação, artes, cultura, segurança pública e cidadania. Numa das salas onde funciona um cursinho pré-vestibular li uma frase que me chamou atenção e fez repensar o meu estado de espirito. “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.” – Guimarães Rosa.



Chove chuva e gentileza gera gentileza!

Começou a cair água do céu e pensei em correr, mas pra onde? Até olhei pra guarita do guardinha do Parque Lage, mas guaritas são pra autoridades, e eu lá sou uma autoridade?! Sai andando, e meu coração aliviou quando diminui o passo. No meu Ipod encharcado começou a tocar Arnaldo Antunes e minutos depois a música fez mais sentido ainda do que já fazia. Na tentativa de salvar o livro do Nick Hornby que ia comigo, parei num ponto de ônibus. Um senhor que esperava a chuvarada passar me olhou e disse: “esse livro precisa de uma ajuda!” E tirou o leite desnatado do saquinho amarelo de supermercado e me desejou uma boa caminhada. A rua deserta e eu. E eu amo banho de chuva e eu amo pequenas gentilezas anônimas.

http://youtu.be/WgZqm_htwSs

Antes da chuva sempre teu "alguém" de olho.
Antes da chuva sempre tem "alguém" de olho.

Que a bicicleta nos proteja. Amém!

Tinha meus 6 ou 7 anos quando meu pai, num terreno baldio na frente do presídio de Passo Fundo, me ensinou a andar de bicicleta. Ela era azul, vindo de um primo rico. Depois teve a Brisa tão rosa, tão querida e recentemente reformada pela minha irmã Raquel. Mesmo tendo um histórico de aventuras com bicicletas, que incluia descer ladeiras ingrimes com amigos de infância, posso dizer que uma cidade me deu a chance de amar novamente as bicicletas, depois dos 30 anos. Amsterdam respira à pedaladas fortes. Me lembro que quando cheguei lá tinha um certo receio de andar em duas rodas. Coordenar as outras bikes, as pessoas, os cachorros, as crianças, os carros (eles existem), os turistas bêbados ou chapados… tudo era uma questão de tempo, mas nos primeiros dias me apavorava e por pouco não cai num canal. Depois de um ano, andava falando ao telefone, pegando óculos de sol na bolsa e dando dicas de direção, tudo ao mesmo tempo!!! E é por Amsterdam que, hoje, no Rio, me sinto tão feliz quando pego umas das bicicletas “laranjinhas” e saio por ai, com ou sem rumo. O destino deste domingo foi o Jardim Botânico. Mais de 200 anos de história e guardas muito simpáticos que se locomovem com bikes verdinhas que são uma graça.

Pra saber mais sobre as “laranjinhas” das quais, definitivamente, virei usuária assídua e feliz – clique em Bike Rio.

os dinossauros do Jardim Botânico
Orquídeas vem de Orchis - Filho de um sátiro com um ninfa que foi morto pelas bacantes... que trama!
Orquídea vem de Orchis - Filho de um sátiro com um ninfa que foi morto pelas bacantes... que trama!
caramanchão do Jardim Botânico
Seu guarda - George Proença. Foi quase um pique esconde. Queria tirar foto das bicicletas dos guardas desde que cheguei no parque, mas o Jardim, dependendo do angulo, parece um labirinto. Ai falei com um guarda em terra, Seu Mario, e ele prontamente me ajudou. Interfonou dizendo que precisava ir ao banheiro e pediu para ser substituído por um amigo da bike. Em 5 minutos o George tava lá, isso sim é eficiência pedalística.
laranjinhas - Tenho dezenas a minha disposição!!!
E toda a pedalada acaba no Seu Luciano - o paraibano que mais entende de coco da Lagoa Rodrigo de Freitas. Detalhe: diz ele que não é homem de sorrir muito, mas fez um esforço para as lentes da gaúcha e acrescentou: "não dou muita risada mas sou bem feliz!!!"

Light painting

Foto feita pela agência Gringo na campanha da Absolut Glimmer
Foto feita pela agência Gringo na campanha da Absolut Glimmer

Em dezembro fui numa mostra muito bacana aqui no Rio chamada Tocayo. Coletivo que reuniu vários artistas em performances, oficinas, cinema, exposições e shows em um galpão no centro da cidade. Fora as reformas,  que pipocam pela cidade e chegaram a atrapalhar um pouco o acesso ao evento, as 12 horas de programação non stop foram bem vindas e recheadas de coisas bacanas, como sessão de cinema, circo e poesia. Alias, acho que pouca gente reparou, mas adorei os horários marcados para o começo das atividades, 16h16, 19h19, 22h22 e por assim ia. A primeira vez que me deparei com horários quebrados foi numa estação de trem em Asmterdam. Lá as saídas de trem são todas quebradinhas, mas funcionam que uma beleza. Nem pense em chegar na corrida pra pegar um trem depois do horário definido, do tipo: 13h49. Bom, mas uma das coisas que mais gostei, além de assistir uns curtas antigos feitos aqui no Rio, foi uma oficina de Light painting.  A técnica que basicamente consiste em fazer figuras com uma câmera fotográfica utilizando fontes de luz me cativou. Fotos com desenhos inusitados ou aleatórios fizeram sucesso num stand que, senão me engano, era patrocinado pelo Itaú. Segundo Marcio Isensee, idealizador e produtor do evento que começou junto com alguns amigos  mostrando seus trabalhos em 2004, “toda a arte é bem vinda” ou “tudo junto misturado” são bons slogans para o Tocayo.

Confere como ficou a exposição do Coletivo Muda . Tem fotos bacanas do evento no blog do Henrique Madeira e light painting também.

Ps: O coletivo Muda me fez perceber que estou com uma obsessão por azulejos. Saco a câmera pra todos que vejo, acho que é o Rio querendo me dizer algo.

A Geraldine quer uma foto assim!!!
A Geraldine quer uma foto assim!!!
The picture never knows - Foto do Tocayo 2011
The picture never knows - Foto do Tocayo 2011

A casa de Santiago – Instituto Moreira Salles.

A casa projetada em 1948, foi inaugurada em 1951. Assinada por Olavo Redig de Campos, o esplêndido palacete, que fica no alto da Gávea, tem ainda projeto paisagístico de Roberto Burle Marx. Anos atrás, numa corrida de táxi, eu e Virgílio escapamos, quase eufóricos, em direção à Marquês de São Vicente. Mas para nossa decepção, o ar era de reformas.  Nascia ali um mito. Eu precisava entrar por aqueles portões fechados e descobrir o mundo de Santiago. Porque tudo começou com ele. A história do mordomo argentino que dançava com as mãos, tocava Beethoven num piano Steinway de cauda, declamava Ovídio em latim e fazia arranjos de flores sob inspiração de partituras clássicas me cativou. Por 30 anos ele comandou a casa dos Moreira Salles e virou personagem principal do documentário feito por João Moreira Salles: Santiago (Brasil, 2007). Pois hoje, encontrei os portões abertos. Como uma Alice, fui descobrindo as maravilhas desse lugar único e arrebatador. As histórias sobre festas, jantares, recepções, surgiam enquanto eu tomava café em frente aos azulejos de Burle Marx. Fantasmas contavam mentiras ao pé do meu ouvido. A quadra de futebol abandonada tinha barulho de riacho e cheiro de jasmim. Obra prima da arquitetura moderna carioca, a casa, hoje, abriga o Instituto Moreira Salles. Amo fotografia e fiquei imensamente feliz ao me deparar com exposições de Manuel Álvarez Bravo e Thomaz Farkas. O primeiro, mexicano, com sua fotopoética registrou de anônimos até amigos como Frida Kahlo. Já Farkas, considerado um dos expoentes da fotografia moderna no Brasil, tinha uma visão humanista, próximo do fotojornalismo e da fotografia documental. Ele quem dizia que o fotógrafo é um mágico militante.

Dobre a próxima à direita.

Uma das pessoas com mais paz de espírito que tive o prazer de conhecer foi o seu Roberto. Acredito que era por conta dessa quietude de alma que ele, generoso do jeito que era, fazia Reiki nas pessoas. Me lembro de um dia o Seu Roberto olhar pra mim com um sorriso e responder ao que eu estava pensando. “Renata, se o teu corpo pede para dobrar à direita então dobre. Se o teu instinto diz pra fazer ou não tal coisa, ouça. O corpo e a mente são sábios.” Foi depois dessa conversa que comecei a perceber o quanto é importante escutar a ti mesmo. Tempos mais tarde, entrava em um ônibus rumo à capital, com duas malas a tira colo. Lembro de um dos meus melhores amigos de infância, o Ronaldo, me levando na rodoviária e dizendo com aquele jeito engraçado que só ele sabe: “tu tá parecendo uma retirante”. Lembrei muito disso hoje, ao pensar em todas as cidades, pessoas, lugares, empregos e vida que tive nestes últimos anos. No dicionário retirante quer dizer – pessoa que foge da seca – de certa forma eu sou uma retirante no mundo. Não fugi da seca, mas, agora, precisava ver o mar.

Ao redor e além

Para conhecer uma cidade é preciso se perder nela. Não adianta. Você pode ter os mapas, GPS e todos os Itudo destes tempos on line, mas o melhor mesmo é seguir o instinto e sair andando. Sempre desconfio de pessoas que tem tudo planejado e mapeado. Em viagens, este tipo de pessoa, por exemplo, tem até a parada para o xixi na agenda, como se o organismo fizesse parte de um compromisso. Uma cidade é como uma música, quanto mais se canta, mais se ouve, mais se conhece e ela acaba se tornando parte da sua vida, ou você da dela. Comece olhando pro lado, pra sua rua, para o seu entorno e os primeiros acordes vão aparecer.